Indústria

Indústria têxtil no Nordeste acelera contratações em junho

Indústria têxtil no Nordeste brasileiro

Em Caruaru, no agreste de Pernambuco, a costureira Selma Pinheiro recebeu três ligações na mesma semana oferecendo trabalho em fábricas de confecção. Depois de oito meses em ritmo irregular — com semanas de meio expediente alternadas com folgas forçadas —, ela aceitou vaga em uma empresa de médio porte que produz uniformes escolares e peças para redes de varejo do Sudeste. "Parecia que o telefone tinha voltado a funcionar", brincou, já na segunda semana de turno integral.

O caso de Selma ilustra um movimento que ouvimos de gestores, sindicatos da categoria e donos de pequenas confecções em Pernambuco e Ceará: junho começou com fila menor nos postos de emprego e mais pedidos de mão de obra qualificada. Não é expansão explosiva, mas uma aceleração perceptível depois de um primeiro trimestre tímido.

O que está por trás dos pedidos

Conversamos com seis empresários do polo de Caruaru e com quatro do Ceará, na região de Fortaleza. A maioria citou dois motores: reposição de estoque no varejo nacional após vendas melhores do que o esperado em maio, e contratos de exportação modestos, porém constantes, para países da América do Sul. Ninguém mencionou boom exportador; o tom foi de "pedido estável, prazo curto, margem apertada".

Peças básicas — camisetas, bermudas, pijamas infantis — lideram a demanda. Moda festa e linha premium continuam mais fracas. Um diretor industrial que preferiu não se identificar disse que a fábrica voltou a operar cinco dias completos e estuda sábado alternado se os pedidos de julho se confirmarem.

Emprego com ressalvas

O sindicato dos trabalhadores têxteis de Pernambuco registrou, até 10 de junho, 142 novas vagas formalizadas em empresas associadas — número superior ao total de abril e maio somados, segundo balanço preliminar compartilhado com a reportagem. Ainda assim, dirigentes alertam para contratos temporários e jornadas intensas em épocas de pico.

  • Muitas vagas são para costureira, overloqueira e auxiliar de corte.
  • Salários variam conforme produtividade; benefícios dependem do porte da empresa.
  • Mão de obra jovem retorna ao setor após migração temporária para serviços e delivery.

Em Fortaleza, uma confecção familiar que atende lojas de bairro relatou dificuldade em encontrar costureiras experientes: parte da mão de obra migrou para trabalho autônomo durante a pandemia e não voltou. A resposta tem sido treinar aprendizes — processo lento, mas que ajuda a reduzir a dependência de profissionais já no mercado.

Cadeia que sente o efeito

Quando a fábrica acelera, o efeito desce a escada. Revendedores de tecido em Caruaru contaram aumento de vendas de malha algodão e aviamentos. Transportadoras locais voltaram a fazer coletas diárias em algumas rotas que estavam em dias alternados. Até a lanchonete da esquina da avenida industrial notou movimento maior no café da manhã — detalhe pequeno, mas citado por três entrevistados sem que a gente perguntasse.

Indústria têxtil no Nordeste não vive de manchete nacional. Vive de pedido confirmado, tecido chegando e costureira sentando na máquina.

Riscos no radar

A aceleração pode ser frágil. Juros altos ainda encarecem capital de giro; energia elétrica pesa na conta; concorrência de importados baratos não desapareceu. Gestores dizem que qualquer solavanco no varejo do Sudeste — principal destino das peças — pode derrubar o ritmo em poucas semanas.

Nos próximos dias, o Pulse vai acompanhar se as contratações se mantêm após o Dia dos Namorados, data que costuma gerar pico em lingerie e moda íntima, e se exportadoras do Ceará recebem novos lotes para o segundo semestre.

Atualizado em 11 de junho de 2026 às 14h40 (horário de Brasília).