Paulo Ribeiro, administrador de 38 anos em Belo Horizonte, adiou a troca de geladeira por três meses. No mesmo período, voltou a jantar fora aos sábados com a família e pagou um curso de gestão financeira online. "A geladeira ainda funciona. Priorizei o que melhora a semana", resumiu, em entrevista rápida na saída de um restaurante no bairro Funcionários.
O relato se encaixa em um padrão que encontramos em pesquisa de rua conduzida pelo Pulse Brasil entre 3 e 9 de junho em São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Curitiba e Salvador. Entrevistamos 120 pessoas em saídas de supermercado, shoppings de bairro e estações de metrô ou BRT. Não é amostra estatística rigorosa, mas um retrato qualitativo útil sobre humor de consumo.
Produto espera, serviço não
Cerca de 44% dos entrevistados disseram ter reduzido compras de eletrodomésticos e eletrônicos nos últimos 60 dias. Em contrapartida, 52% relataram aumento de gastos com alimentação fora de casa, consertos, beleza e educação informal — cursos curtos, aulas particulares, workshops.
O movimento não é exclusivo de classe média. Em Salvador, entrevistas no bairro de Plataforma mostraram famílias que cortaram TV por assinatura, mas mantiveram festa de aniversário em salão de bairro. Em Curitiba, oficinas mecânicas de bairro relataram fila maior para revisão preventiva — sinal de que as pessoas preferem conservar o que já têm.
Por que serviços agora
Conversamos com três economistas independentes para interpretar o fenômeno. Há consenso parcial em torno de alguns fatores:
- Estoque de bens duráveis cheio em muitas casas após compras feitas nos anos anteriores.
- Cansaço de postergar experiências sociais após períodos de isolamento e cautela.
- Medo de comprometer orçamento com parcelas longas em itens caros.
Uma das economistas, Valéria Nunes, ressaltou que serviços costumam reagir mais rápido a mudanças de confiança do que varejo de bens. "Quando a pessoa volta ao restaurante, ela está dizendo que o mês fechou sem susto. Não é luxo — é termômetro", afirmou.
Quem ganha e quem perde
Restaurantes de bairro com ticket médio entre R$ 45 e R$ 80 por pessoa foram os mais citados como beneficiários. Salões de beleza e barbearias apareceram em seguida. Lojas de móveis e eletro varejistas disseram sentir o efeito inverso: mais visitas, menos fechamento de venda.
Em Recife, dona de cafeteria no Espinheiro contou que clientes pedem café especial, mas levam sanduíche da casa em vez de comprar máquina de espresso. "Querem o ritual, não o equipamento", interpretou.
Gastar em serviço é gastar no presente. Comprar eletro grande é apostar no futuro. Hoje, muita gente ainda hesita em apostar.
O que observar daqui pra frente
Se o deslocamento para serviços se mantiver, setores ligados a manutenção e educação profissional podem ter trimestre melhor que o de bens duráveis. Se a inflação de alimentos acelerar de novo, restaurantes podem ser os primeiros a sentir corte — o serviço que parece essencial hoje pode voltar a ser visto como supérfluo amanhã.
O Pulse vai repetir a rodada de entrevistas em julho, incluindo Manaus e Porto Alegre, para ver se o padrão se repete fora das cinco capitais iniciais. Enquanto isso, queremos ouvir leitores: o que você deixou de comprar e o que voltou a fazer? Mande para [email protected] com a cidade no assunto.